Escrita Criativa

Escrita Orgânica x Escrita Roteirizada

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Talvez você já tenha se deparado com os termos “escrita orgânica” e “escrita roteirizada”. Mas você sabe o que eles significam? Hoje explicaremos para você a diferença entre os dois estilos, e quais são as vantagens e desvantagens de cada um.
 

Escrita orgânica

A escrita orgânica, como o nome sugere, acontece naturalmente. Os autores que seguem este método geralmente acreditam que é a própria história que deve conduzir seu rumo; alguns, inclusive, acham que um roteiro delimita a criatividade. Para esses autores, a escrita é como um organismo vivo, com vontades próprias e uma natureza que não pode ou deve ser controlada.
É claro que, ainda assim, eles partem de uma ideia inicial. O decorrer, porém, se desenrolará naturalmente. Parece absurdo? Pois saiba que um exemplo de autor orgânico é o consagrado Stephen King.


Vantagens

• Em muitos aspectos, a história realmente tem sua própria indomabilidade. Conforme escrevemos, passamos a conhecer melhor os nossos personagens, nossos universos e nossos próprios enredos. Assim, ao escrever organicamente, é mais fácil seguirmos com a história, nos adaptando conforme vamos descobrindo novas nuances da mesma.
 
Liberdade. Ao mesmo tempo em que é um problema do método, também é uma vantagem. Quando você não pretende chegar a um destino específico, pré-determinado, você pode navegar por qualquer caminho e explorar possibilidades diversas, seguindo apenas o que a história possa estar precisando.


Desvantagens

• Ter apenas uma ideia abstrata pode (mas não necessariamente irá) causar cenas desnecessárias, pontas soltas e alguns rascunhos a mais. Isto porque, conforme você vai pela tentativa-e-erro, muita coisa se torna inútil em revisões posteriores, exigindo mais cuidado da edição.
 
Bloqueio criativo: As palavras que nenhum escritor gosta de ouvir. Novamente, quando parte da sua história é uma incógnita até para você mesmo, pode ser difícil saber onde ir a seguir, causando maior propensão a travamentos ao longo do caminho.


Falando por experiência…

Quando comecei a escrever, tudo o que eu criava era orgânico. Em geral, eu costumava ter a ideia inicial, mas não sabia como, quando ou onde elas terminariam. A primeira história que concluí é um bom exemplo: Eu tinha a ideia inicial e só. Os personagens eram apenas nomes e embora eu tivesse uma vaga ideia do que eu queria, eu não sabia como transformaria aquela pequena ideia em duzentas, trezentas páginas. A experiência com este estilo foi, para mim, confusa e por vezes bastante frustrante.
 
Por outro lado, eu amava escrever esta história, justamente porque a cada vez que eu parava para criar, estava descobrindo meus personagens e meu enredo. Eu deixei que eles me guiassem e, mais de uma vez, surpreendi-me com o rumo que tomamos juntos. Por não ter um roteiro, também, as coisas fluíram de uma maneira natural, porque eu não precisava forçar que tudo se encaixasse para chegar aonde eu queria — eu apenas me adaptava conforme íamos.


Escrita roteirizada

Já na escrita roteirizada, também como o nome sugere, o autor cria um roteiro a ser seguido. Os autores que seguem este método apontam que é impossível você ir plantando dicas e foreshadowing sobre acontecimentos futuros, se nem você sabe quais serão esses acontecimentos.
 
Aqui, o autor prefere criar um roteiro que deve ser seguido. O tipo de roteiro pode variar. Alguns, anotam a maior quantidade de detalhes (se for uma série ou trilogia, por exemplo, é interessante ter todas as partes do quebra-cabeça antes de tentar começar a montá-lo, evitando erros de continuações) que sabem sobre a história, fazendo verdadeiros dossiês sobre seus personagens e traçando meticulosamente suas árvores genealógicas; outros, criam pequenas sinopses para cada um dos capítulos, de forma que tenham uma boa noção do caminho que a história seguirá e como levar de um ponto até o outro, diminuindo até mesmo as chances de um bloqueio criativo.



Vantagens

Otimização. Quando você prepara cuidadosamente cada passo do caminho, reduz-se o desnecessário e a história fica mais enxuta, se atendo apenas ao essencial. Obviamente ela ainda precisará de edição, mas talvez haja menos a ser corrigido.
Diminui os erros de continuação. Claro, uma boa revisão pode sanar esse problema, mesmo quando se escreve organicamente. Mas quando você tem um roteiro, a tendência é você não ter tantos problemas do continuação (que podem ser os mais variados: nome de personagem que muda no meio da história, os sempre traiçoeiros números, partes repetidas, etc).


Desvantagens

Robotização. Quando você tem um roteiro e tenta segui-lo, às vezes, dependendo de como o conduz, pode parecer algo mecânico e forçado, especialmente se as personalidades dos personagens ou a ideia da própria história evoluírem muito além da ideia original.


Falando por experiência…

Atualmente, esta é a minha forma preferida de escrever. Comecei fazendo roteiros para mim mesma, fazendo notas para não esquecer de detalhes importantes que precisavam ser introduzidos antes para construir a história e amarrar um bom desfecho. Porém, com o tempo, comecei a fazer pequenas sinopses para cada um dos capítulos, o que facilitou muito e diminuiu meus bloqueios criativos. O problema é que, às vezes, eu acabava descobrindo que um personagem nunca conseguiria chegar ao ponto que deveria, porque ele se desenvolveu diferente do que eu esperava.
 

Conclusão

Pessoas diferentes têm processos de escrita diferente, e não é necessário haver um método certo ou errado. Na verdade, eu implementaria a Escrita Yin-Yang, pois acredito que é impossível escrever puramente com um método. Um deles pode, e geralmente vai, prevalecer. Contudo, em algum nível, conscientemente ou não, você vai criando um roteiro, tendo ideias de como continuar. Isto não significa que você entra sabendo cada detalhe; talvez você nem mesmo saiba o final. Apenas que, conforme avança, seu cérebro vai analisando as possibilidades e decidindo o melhor caminho para seguir. Em algum momento, você tem que decidir se o final X é melhor do que o Y. Esta decisão não é da história — para uma história acontecer, basta juntar palavras —, é sua.
 
Da mesma forma, não há como você conhecer seu personagem apenas delimitando o roteiro da história dele; pelo menos, não se você quer criar um personagem complexo, multifacetado e verossímil. As peculiaridades e detalhes vão surgindo pelo caminho, conforme eles encaram obstáculos e lidam com os mesmos, moldando suas personalidades. Às vezes você pode até tentar prever, tentar direcionar; outras vezes, porém, você se surpreenderá vendo que o que você tinha planejado já não se encaixa mais com a evolução natural da história/personagem. Não importa se você escreva um breve resumo capítulo por capítulo, você ainda deverá preenchê-los com conteúdo esmiuçado, que fará aparecer coisas que você desconhecia antes.
Talvez, a verdade seja que se tratando de Escrita Criativa, independente do método que você prefira, você ainda tem que dançar conforme a música.

Agora queremos saber de você:
Você já estava familiarizado com esses termos? Qual dos dois estilos é o seu favorito e por quê?
  • Beatriz Almeida

    Então eu acredito que Chuck Palahniuk utiliza escrita orgânica!

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